O facto é que, enquanto tudo mudou, nada mudou.
Enquanto o mundo parece ruir à nossa volta,
enquanto mais dos nossos planos são frustrados,
enquanto aprendemos, hesitantes, a não poder fazer mais planos,
enquanto notícias de “luz ao fundo do túnel” deixam de sequer aflorar as nossas expectativas,
enquanto abdicamos, notícia a notícia, da nossa crença na esperança,
enquanto nos isolamos do universo exterior,
enquanto, de facto, nos isolamos também do universo interior, porque sabemos que as nossas emoções estão a um toque de ruir junto com o mundo à nossa volta,
enquanto vemos lágrimas rolar rostos abaixo, peitos subir numa flexão hercúlea oposta à cama, à procura do ar,
enquanto mais uma primavera se aproxima, apenas para que daqui a semanas se volte a ir embora sem que tenhamos visto sakura,
enquanto os pirilampos caem exaustos e com eles a última luzinha que nos restava,
enquanto o nosso coração lamenta, o nosso choro é derramado em silêncio, o nosso semblante cheira a tormento, e o nosso âmago pranteia: Porquê? Porquê agora? Porquê a mim? Porquê ainda? Porquê mais? Até quando, Senhor? Até quando?!,
o facto é que as nossas convicções não mudaram.
O que no abençoado ano 2019 era verdade ainda o é.
E a verdade não muda.
Se o deixarmos em paz, o mundo vai esperar por nós.
A lua, que em tudo o que já passámos não deixou de voltear o nosso planeta – noite, após dia, após noite –, não desonrará o seu compromisso de brilhar para nós. Elegante. Elevada. Pura. Perene. Todos os meses, em todos os países.
O sol, testemunha de todas as gerações deste mundo, também de hoje em diante não deixará de nos acordar pela manhã, e não deixará o seu posto durante o dia. Não deixará de festejar em cores quentes e esplendorosas ao virar de cada página.
No seu ápice, uma tribulação sustentada como esta despe-nos. É uma prova de fogo à nossa resiliência, e queima todos os fardos que nos pesavam sem que nos apercebêssemos. Deixa-nos à mercê do vento: desprovidos das camadas de futilidades, luxos, estímulos, distrações. Despe-nos como nos sonhos em que somos o nosso eu de 4º ano desnudo em frente à turma inteira. Despe-nos como Descartes se despiu de tudo o que não resistiu à sua dúvida.
Não temos nada do que queríamos, nada do que críamos nos convir. E, contudo, sabendo isto, ainda não queremos abrir mão. Estamos em negação.
Mas, no meio dessa vulnerabilidade, sentir o vento na pele revela-se uma forma excelente de descobrirmos que, afinal, temos ouvidos para escutar as verdades que todo este tempo ele nos andava a sussurrar.
É como estar fechado numa cabine durante uma tempestade – cada clarão de relâmpago e estrondo de trovão parece que te vai destruir, mas depois continuas a viver para ver outro e mais outro.
– Ruth Van Reken
A coragem está apoiada na oração, obviamente, mas, além disso, numa visão sempre renovada do objetivo a atingir. O prisioneiro que tenta fugir sabe como conservar disponíveis todas as suas energias; ele não se enfastia com os longos preparativos, com as retomadas depois dos malogros: a liberdade aí está a chamá-lo.
– Antonin-Gilbert Sertillanges
E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele providenciar-vos-á um escape, para que o possam suportar.
I Coríntios 10:13
Vulneráveis. Expostos. Indefesos. Despidos, tão desamparados ficamos que a única coisa que nos pode socorrer é a perceção de que há um plano maior. De que há algo que simultaneamente nos penetra do cerne para fora e nos ultrapassa infinitamente. Que há um início e um fim. Que há um fundamento por baixo de cada casa, e um céu acima de cada telhado. Que há uma história, um significado, um propósito.
Surge um senso de que não chegámos até aqui em vão.
Chega uma aceitação de que basta a cada dia a sua preocupação.
Há o vislumbre de uma consciência de que os nossos planos não valem nada – não valem nada agora, nem nunca valeram. A única coisa a valer sempre foi o plano de Deus. Agora que esse plano nos é mais difícil, dá vontade de esquecer o quão bom ele é: o quão bom ele já foi, e o quão bom promete ser. O como cumpre as suas promessas. Agora, que temos de esperar, é tão fácil esquecer.
Mas quem se lembra dessa verdade é quem aguenta tempo suficiente para vê-la acontecer. Em toda a sua evidência e esplendor.
Lá, no sonho, encontrámos uma verdade sobre nós mesmos: a verdadeira nudez está não no nosso corpo, mas na nossa insegurança. Lá, no fundo da sua crise, Descartes encontrou que nem tudo é uma ilusão. Sim, a nossa dúvida é muito mais nefasta do que sequer admitíamos em primeiro lugar. Porém, ainda assim, há verdades que não são efémeras. As histórias que começámos a viver ainda estão a ser contadas. E é Deus quem as está a escrever.
Nas certezas há esperança – e é por isso que no incerto também.